As 10 maiores histórias da década em ciência e tecnologia, segundo o ISNS

Fonte: Chivononpo


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Descobertas, dispositivos e desenvolvimentos que mudaram nossa maneira de ver o mundo ao longo dos dez últimos anos.

11 de janeiro de 2010
Por Jason Socrates Bardi, Chris Gorski, Devin Powell e Phillip F. Schewe
Inside Science News Service

1.  DNA, Genomas e Células Tronco

As esperanças e o interesse que envolveram a pesquisa “genômica”, direcionada para a decodificação do DNA, não conheceu limites nesta década. Mesmo antes de aparecerem os primeiros “rascunhos” do genoma humano em 2001, a quantidade de trabalho empregada nessa decodificação era semelhante à do envio dos primeiros homens à Lua. A promessa contida no segredo codificado em todos esses bilhões de letras, cuidadosamente contados, do DNA era que, dentro desse enigma, pudessem ser encontrados segredos biológicos fundamentais, o que auxiliaria os cientistas a descobrir as marcas genéticas das doenças humanas e – quem sabe?… – revelar novos alvos de medicamentos para essas doenças.

Os humanos não foram as únicas criaturas a ter seu DNA decodificado nos últimos anos. Durante a década, também foram compilados os genomas de cães, vacas, galinhas, cavalos, gatos, ratos, mariposas, chimpanzés, mosquitos, abelhas, baiacus e porcos. E, nas bases de dados das ciências, a eles se juntaram as sequências da mostarda, arroz, milho, uvas e mais espécies de vírus, leveduras, fungos, algas e cogumelos do que as pessoas podem contar.

Muitas das maiores manchetes vindas do campo da biologia vieram do campo das células-tronco. Essas células encerram a tremenda promessa de tratamento para doenças tais como o Mal de Parkinson e o câncer, porque têm o potencial de se transformar em qualquer tipo de célula do corpo. Enquanto os debates na última década se focalizavam nos usos éticos da pesquisa com células-tronco, os pesquisadores davam passos largos no campo, descobrindo maneiras de programar e reprogramar células no tubo de ensaios, por exemplo.

2.  Grande Colisor de Hádrons (mais conhecido como LHC = Large Hadron Collider)

O mais poderoso acelerador de partículas já projetado, foi construído na década passada e está hoje em funcionamento. Localizado nas profundezas da terra abaixo de Genebra, o LHC tem um túnel circular de 27 km, através do qual circulam dois feixes distintos de prótons em direções opostas, quase à velocidade da luz. Exsitem diversos pontos ao longo do túnel onde se pode fazer os dois feixes colidirem, e a energia liberada pela tremenda colisão é a suficiente para criar novos tipos de partículas. Os físico esperam que essas partículas possam levar adiante nosso conhecimento básico sober a matéria – especialmente o Bóson de Higgs, o item mais importante da pesquisa, já que se supõe que seja ele quem confere massa às partículas conhecidas.

Bem no final de 2009, os cientistas e engenheiros conseguiram colidir os feixes de prótons dentro do túnel do LHC pela primeira vez. Com isso eles estabeleceram um novo recorde de energia em colisão de partículas: quase 2,4 trilhões de elétron-volts. Os cientistas do LHC esperam para este ano, alcançar energias ainda maiores e produzir feixes de intensidade muito maior.

3.  Mudanças Climáticas

As mudanças climáticas vêm sendo discutidas na comunidade científica ao longo de décadas. Um painel da Academia Nacional em 2001 reconheceu a ocorrência de uma “mudança de paradigmas” na comunidade científica, reconhecendo a possibilidade de mudanças climáticas na escala de uma única década. A ciência também demonstrou que as bacias oceânicas estão se aquecendo – pondo em risco os corais do mundo – e que os níveis de dióxido de carbono ultrapassaram as 380 partes por milhão pela primeira vez em centenas de milhares de anos.

Em 2006, o cientista da NASA James Hansen declarou ao New York Times que seus superiores estavam tentando silenciar suas tentativas de falar em público sobre as mudanças climáticas causadas pela atividade humana, um conceito que Al Gore viria a chamar de “uma verdade inconveniente” em seu documentário, também publicado em 2006. Em 2009, a Agência de Proteção Ambiental (Environmental Protection Agency = EPA) começou a regular a emissão de gases de efeito estufa com a promulgação do Clean Air Act, reconhecendo que gases, tais como o dióxido de carbono, são uma ameaça à saúde pública e ao meio ambiente. No encerramento da década, a Conferência Internacional de Cientistas e Políticos em Copenhagen, em dezembro de 2009, não chegou a conclusão alguma, o que desapontou muitos dos participantes.

4.  A Proliferação de Tecnologia de Uso Pessoal

A vinte anos atrás, poucas pessoas jamais tinham enviado um e-mail ou possuído um telefone celular que fosse, muito menos um dispositivo que coubesse na palma da mão e pudesse acessar a Internet, enviar e-mail e exibir filmes em alta definição. O que os computadores pessoais e os faxes foram para os anos 80 e 90, os smart phones, laptops e as redes sociais foram para a década passada.

Com será que as pessoas faziam para se ignorarem nos transportes de massa em 1999? Não existiam iPods (lançados em outubro de 2001). As pessoas não eram capazes de “pokear”, “tuitar”, ou qualquer um desses verbos neologísticos que seriam totalmente desprovidos de sentido a meros ao anos atrás. “Facebook” seria apenas um livro com fotografias. “Second Life” seria um sinônimo de “reencarnação”. Mesmo após o estouro da “bolha ponto com” no início da década, os dispositivos portáteis e suas tecnologias interessantes e convenientes explodiram, tornando a década passada em um mundo cada vez mais conectado.

5.  Explorando Outros Planetas

Quando as pessoas da antiguidade olhavam para o céu noturno, elas viam milhares de pontos de luz fixos, que hoje conhecemos como “estrelas”, e uns poucos outros de se movimentavam rapidamente de noite para noite.  Quando Galileu apontou seu novo telescópio para esses errantes (o nome “planeta” vem do grego para “errante”), ele revolucionou a compreensão do cosmo. E a revolução continua.

Nos últimos dez anos, uma série de espaçonaves se espalhou pelo Sistema Solar para visitar ou fotografar os planetas. Essas naves incluem a missão Galileu para Júpiter, a missão Cassini para Saturno, a missão Messenger para Mercúrio e um punhado de naves enviadas a Marte. As descobertas mais importantes incluem a descoberta de água em Marte e na Lua, um novo anel fino em torno de Saturno, os lagos de hidrocarbonetos de Titan (visitado pela sonda Huygens) e setores da superfície de Mercúrio que foram mapeados pela primeira vez.

As espaçonaves mais antigas, lançadas nos anos 70, tais como as Voyagers e as Pioneers, continuam a prestar importantes serviços. Além da órbita de Plutão, esses anciãos da era espacial estão recolhendo informações importantes acerca da área de fronteira onde a influência do Sol acaba e começa o espaço interestelar.

Através da medição de pequenas oscilações em estrelas próximas, os astrônomos conseguiram detectar indiretamente os exoplanetas – planetas que orbitam outras estrelas – e medir suas massas e distância da estrela-mãe, na esperança de encontrar planetas semelhantes à Terra. Os avistamentos recentes de exoplanetas incluem as primeiras imagens visuais de mundos distantes e revelaram “super Terras”, de 5 a 7 vezes maiores do que nosso planeta.

6.  Cosmologia de Precisão

As descobertas científicas levaram a muita reconsideração, ao longo dos séculos, acerca do lugar da espécie humana no cosmos. Essas descobertas incluem a percepção de que a Terra não fica no centro do universo; que pode ser que nem haja um centro; que nosso sistema planetário não é o único; que a Via Láctea não é a única galáxia; e que podem até existir universos paralelos além deste nosso.

A cosmologia estuda os céus na maior escala possível – o universo como um todo. Por muitos e muitos anos, foi uma ciência imprecisa, a quem faltavam os instrumentos ultra-sensíveis existentes nos laboratórios na Terra, mas isso começou a mudar. A década passada revelou uma série de satélites e detectores especializados – que incluem a Sonda de Anisotropia em Micro-ondas Wilkinson (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe = WMAP) – que ajudaram a clarear nossa compreensão do universo. A partir das medições da última década, sabemos agora que o universo tem 13,7 bilhões de anos de idade, que os primeiros átomos se formaram a 380.000 anos depois do Big Bang, que as primeiras estrelas se formaram a cerca de 400 milhões de anos depois do Big Bang e que, provavelmente, cerca de 73% da energia do universo consiste da misteriosa Energia Escura. Os astrofísicos acreditam que a Matéria Escura, uma forma de material não luminoso, seja um outro importante ingrediente da dinâmica das galáxias. Recentemente, alguns indícios diretos da existência de Matéria Escura foram obtidos por sensores colocados bem no fundo da Terra, mas os pesquisadores precisam de mais dados até terem certeza.

7.  Novos Materiais

A concessão do Prêmio Nobel de 2009 de Física para cientistas que fizeram descobertas que levaram às câmaras digitais e comunicação por fibras ópticas, sublinha a ideia que a pesquisa básica é vital para o desenvolvimento de novas tecnologias – mesmo quando as aplicações práticas da pesquisa estejam a décadas de distância. Isso é particularmente verdadeiro para os cientistas que estudam as propriedades da matéria condensada.

Nos últimos anos, foram descobertas duas novas formas de carbono: os nano-tubos e o grafeno, uma folha de carbono com apenas um átomo de espessura.  Essas duas formas de carbono tem propriedades úteis que incluem grande força, condutividade elétrica para circuitos integrados e características térmicas e ópticas interessantes.

Os metamateriais são outro tipo importante de substâncias recentemente descobertos. Construídos a partir de pequenos dispositivos de hastes e anéis, eles apresentam bizarras propriedades ópticas que podem, um dia, ser adaptadas para diversas aplicações práticas, tais como filtros para telefones celulares, lentes de pequena espessura e aplicações em camuflagem.

8.  Vacinas e Infecções Emergentes

Desde a Gripe Espanhola de 1918, até a HIV/AIDS nos anos 1980, a história é sempre inexoravelmente ligada às doenças que assolam a humanidade. A década anterior não foi diferente e algumas das maiores histórias da ciência brotaram dessas fontes de infecções. Cartas aspergidas com antrax apareceram em 2001, a mortífera epidemia de SARS em 2003 e a Gripe Suína de 2009 criou longas filas de pessoas à espera de vacinação contra o vírus H1N1 – a primeira verdadeira pandemia de gripe em 40 anos.

Muitas vacinas conquistaram as manchetes nos últimos 10 anos. Em 2006 e 2007, a vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV) foi aprovado pela Food and Drug Administration como prevenção para o câncer cervical. E após muito anos de testes em laboratório e pesquisa de campo, o primeiro teste clínico com sucesso para uma vacina contra a AIDS foi relatado no fim de 2009. Nem todas as histórias sobre vacinas foram positivas. O esforço internacional para erradicar a polio entrou em dificuldades quando rumores acerca da toxicidade da vacina começaram se espalhar em países onde essa doença ainda é endêmica. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha se espalhou um medo sobre a vacina contra sarampo, rubéola e caxumba (MMR), após um artigo em uma publicação de medicina estabeleceu ligações entre essa vacina e o autismo – uma ligação que vários estudos e uma exaustiva revisão feita pelo Institute of Medicine e outras investigações, desacreditaram.

9. A Emergência da China

A China está terminando a primeira década do século XXI exibindo sinais de que ela pode ser o próximo superpoder científico. Na altura de 2008, ela produzia mais candidatos a Ph.D. do que qualquer outro país do mundo. Em 2006, Margaret Chan se tornou a primeira cidadã chinesa a dirigir uma agência da ONU quando foi eleita diretora geral da Organização Mundial de Saúde. E, depois do sucesso do primeiro passeio espacial de um taikonauta em 2008, a China espera construir bases na Lua.

Nem todas as notícias vindas da China sobre ciência e tecnologia, na última década, foram positivas. A comida para animais de estimação contaminada e os brinquedos tóxicos alcançaram as manchetes, assim como o fato de que a China produz agora mais dióxido de carbono do que qualquer outra nação – muito embora muito menos dos que os EUA per capita. Projetos como a Represa das Três Gargantas atraíram críticas por seu impacto no meio ambiente e a emergência da SARS em 2003 trouxe a desconfiança internacional sobre capacidade de resposta da saúde pública da China.

10.  A Expansão da Compreensão da Ancestralidade da Humanidade

Muitas pessoas se interessam pela própria genealogia como um hobby para ter uma melhor compreensão de suas raízes. Em algum ponto, a pista dos registros acaba. A questão sobre o que veio antes, permanece. Compreender de onde nós humanos viemos, como espécie, é um quebra-cabeças ainda mais complicado, precisando de todas as ferramentas da ciência e todo o raciocínio que a evolução nos proporcionou.

A publicação, em outubro de 2009, de vários artigos científicos com a interpretação de um fóssil com 4,4 milhões de anos, Ardipithecus ramidus, culminou uma pesquisa de 10 anos sobre as origens dos hominídeos. Os cientistas levaram 17 anos laboriosamente recolhendo, reconstruindo e interpretando os fósseis do A. ramidus encontrados na Etiópia,k antes de anunciar formalmente suas descobertas ao público, inclusive o mais antigo esqueleto de um ancestral dos humanos conhecido.

Em 2003, outra equipe de pesquisadores tinha encontrado o Homo florensis, informalmente conhecido como hobbits, em uma caverna na Ilha Flores na Indonésia. Estes são tidos como uma linhagem separada dos humanos modernos, uma que se separou de nossa espécie e resistiu até cerca de 12.000 anos atrás. Sua extinção é até mais recente do que a dos Neanderthals.

Várias descobertas e novas interpretações forçaram os antropólogos a reexaminar sua compreensão do relacionamento dos Neanderthals com os humanos modernos. Na década anterior o DNA dos Neanderthal foi recuperado e sequenciado, prometendo uma pletora de oportunidades de pesquisas. De cambulhada com o resto, apareceu um importante gene ligado a nossas habilidades linguísticas, chamado FOXP2, que adicionou mais uma pista a um complicado debate sobre o nível das habilidades de linguagem que os Neanderthals possuíam. Ao longo da década, os antropólogos e outros especialistas continuaram a rastrear as pegadas dos ancestrais de nossa espécie, enquanto ocorriam furiosas batalhas legais e filosóficas entre os que ensinam a evolução e aqueles que gostariam de ensinar outras ideias a respeito tanto da origem do Homo sapiens, como da vida na Terra.


O texto completo deste artigo fica disponível para publicação, se e somente se todo o material produzido pelo Inside Science News Service seja devidamente creditado a sua fonte original ao ser eepublicado. Para maiores detalhes, contacte o ISNS em InsideScience@aip.org

Modelo computacional pode prever deslizamentos e terremotos, diz cientista

fonte: www.g1.globo.com

Tese de doutorado na UFRJ cria sistema automatizado de alerta.
Solução depende de processamento de dados que já estão disponíveis.

Uma tese de doutorado apresentada há quase seis anos no Brasil afirma que é possível prever deslizamentos de terra, desde que dados registrados e disponíveis sejam usados com mais sabedoria. O mesmo princípio seria aplicável à previsão de terremotos.

Elaborada pelo engenheiro civil paranaense Fábio Teodoro de Souza entre março de 2000 e junho de 2004, o trabalho “Predição de escorregamentos das encostas do município do Rio de Janeiro através de técnicas de mineração de dados” constrói modelos computacionais que associam dados históricos de deslizamentos, índices pluviométricos e características do solo e indicam a probabilidade de que os fenômenos se repitam diante da recorrência de determinadas condições. Agora Souza está na China, desenvolvendo modelos similares para prever sismos.

A pesquisa foi desenvolvida no programa de pós-graduação em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). Após incursões acadêmicas na Itália e nos EUA, onde colaborou com instituições como o MIT e a Universidade Harvard, desde outubro de 2008 Souza faz seu pós doutorado no Instituto de Engenharia Fluvial e Costeira da Universidade Tsinghua, em Pequim.

A metodologia para alertar sobre riscos de deslizamentos é baseada em mineração de dados (ou data mining), a exploração de grandes quantidades de variáveis em busca de padrões consistentes. “Com uma rede bastante densa de pluviômetros e estações meteorológicas, esses modelos poderiam ser usados para indicar não somente riscos de deslizamentos, mas também de enchentes, descargas elétricas e quaisquer outras catástrofes induzidas por fenômenos meteorológicos”, explicou Souza ao G1.

Sozinhos, evidentemente, esses modelos não podem evitar os eventos em si. Mas ajudariam, por exemplo, a balizar a ação de equipes de Defesa Civil e (com um pouco de otimismo) orientar políticas públicas que evitassem a ocupação de áreas vulneráveis. “Os modelos foram validados em dados reais e com acurácia extremamente alta, sempre maior que 90%”, assegura Souza.

O problema é que ninguém deu bola para o produto final do doutorado de Souza, o que, aliás, pesou muito em sua decisão de transferir-se para centros de pesquisa no exterior. “Quando eu acabei, imprimi mais de 30 cópias e entreguei um exemplar da tese para cada instituição de governo ou dedicada a alerta e a operações de resgate”, conta Souza. “Mas ficou nisso, não passou do ‘depois a gente se fala’. Não houve interesse de implementação.”

Brasil tem o segundo maior número de usuários do Twitter

Segundo estudo da Sysomos, o Brasil é o país com o segundo maior número de usuários do Twitter no mundo, com 8,79% do total de usuários do serviço.

À frente do Brasil ficou apenas os Estados Unidos, que representam 50,88% dos tuiteiros do mundo. Desde a pesquisa anterior, em junho de 2009, os americanos já lideravam, mas o Brasil foi uma grande surpresa. Sua representatividade no Twitter deu um grande salto, mais que quadruplicando os 2% que detinha em junho, e assim ultrapassando a Autrália, o Canadá e a Grã-Bretanha, para chegar ao segundo lugar que possui agora.

No total de tuitadas, porém, cai pra terceiro, com 6,73%. Nesse quesito os americanos continuam na frente (56,59%) e a Grã-Bretanha fica em segundo (8,09%).

O estudo analisa também as cidades que mais tuítam, e novamente o Brasil marcou presença: São Paulo é a terceira maior responsável pelos posts no microblog (1,47%), atrás apenas de Los Angeles (1,63%) e Londres (2,08%). O Rio de Janeiro também aparece no top ten, ficando com a nona colocação por enviar 0,75% das tuitadas mundiais.

Fonte: Tecnoblog

2009 – Os quatro séculos da ciência moderna

Compacto da reportagem da revista unespciência, setembro de 2009. Alguns trechos foram acrescentados  por mim.

Em 1609, talvez entre uma aula e outra na Universidade de Pádua, o então professor de matemática Galileu Galilei (1564-1642) resolveu olhar para o céu. De posse de uns “óculos especiais” aperfeiçoados por ele mesmo a partir de um instrumento recém inventado por holandeses, ele viu a lua de um modo como ninguém jamais havia visto. Descobriu também que havia no espaço muito mais estrelas que se podia imaginar e que Júpiter tinha seus próprios satélites. Observações que ocasionaram a quebra do paradigma geocêntrico e uma mudança radical de visão do mundo vigente até então. Nascia ali a ciência moderna.

Tal fato trouxe ao pensamento cientifico que para gerar conhecimento é preciso observar, experimentar, calcular e raciocinar. A ciência deixava de ser explanada pelo tradicionalismo religioso e entravam em ação o racionalismo e o empirismo. A partir das observações com a luneta, Galileu mostrou que era possível enxergar além de nossos sentidos por meio de objetos produzidos pela razão. Houve também a ruptura da ideia do perfeccionismo divino pregado pela Igreja na época. Quando Galileu observa a lua e enxerga nela crateras, põe abaixo a escolástica de que o céu era perfeito.

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Eu, produtor de conhecimento

O ano de 1609 foi simbólico porque Galileu começa a oferecer uma visão inteiramente nova sobre o procedimento cientifico. Começa a haver uma sistemática para a experimentação e observação. Com fórmulas ele deduziu como a natureza agia. A partir daí, a matemática se uniu à ciência de forma promíscua e foi considerada por Galileu como a linguagem fundamental da natureza.

O que Galileu propunha, no entanto, era algo maior do que a ideia de que a Terra não é o centro do Universo. A nova maneira de fazer ciência e observar as imperfeições ao redor afetava a concepção do mundo de uma maneira arrasadora para toda a cultura antropocentrista e antropocentrada. Logo, os primeiros impasses entre ciência e religião começaram a acontecer. Naquele momento, o embate era claro, não se podia empenhar artigos de fé em assuntos de razão. E este foi o ponto crucial para o nascimento da ciência moderna. A separação entre ciência e fé, entre fato e valor. “A ciência determina fatos que, em princípio, servem para todos os homens; portanto são neutros do ponto de vista do valor. Se a Terra se move ou não isso não tem nada a ver com ser protestante ou católico”.

Acrescentado por João Paulo:
Assim foram muitos outros cientistas e filósofos, que sofreram nas mão da Inquisição. Mas aqui não se pode criticar a ciência ou a Igreja. Ambos tiveram seus auges, ambos se conderaram também. Porém, esse empasse ideológico pôde ser realmente apresentado com um filófoso e matemático muito importante, Descartes. Ele publicou seu livro “O Discurso do Método Científico” logo após as perseguições a Galileu, feitas pela Inquisição, sendo assim alvo de muitas críticas. Descartes mostrava bem diretamente, com sua dialética, que a CIÊNCIA NÃO EXCLUI A RELIGIÃO, elas podem muito bem viver em harmonia, alcançando assim a VERDADE ABSOLUTA. Porém o Homem hoje, se esqueceu totalmente das verdades, da moral, e alienando-se passou a preferir mais o TER do que o SER, nada mais do que a sociedade capitalista emprega.

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Homem fora do pedestal

Essa revolução deixou marcas na imagem que a civilização tinha de si mesma. Para Sygmund Freud (1856-1939), foi a primeira das três feridas que abalaram o narcisismo da humanidade, ao tirar dos homens a ideia de que eles ocupavam um lugar privilegiado no Universo. A segunda ocorreu há 150 anos com a teoria da evolução por seleção natural proposta por Charles Darwin em seu A Origem das Espécies. A terceira, segundo Freud foi a que seu próprio trabalho provocou ao mostrar que o homem não é senhor absoluto da sua própria psique. “O homem perdeu seu pedestal no Universo, mas se conscientizou como único Ser capaz de compreender a natureza e dominá-la”.

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Do moderno ao contemporâneo

Com os passar dos séculos sociedade e ciência juntamente evoluíram. A ciência que era tida como algo fútil e de quebra dogmática passara a ser tida como verdade absoluta com o Movimento Iluminista. Depois voltou a ter sua credibilidade abalada com tragédias que atingiram a humanidade, momentos que acabaram abrindo espaço para o misticismo.

Hoje, talvez o grande desafio da ciência seja o seu papel em relação à humanidade. “Com a consolidação da ciência, surgiu a suposição de que ela serve para todos, então não tem problema moral. Mas hoje sabemos que não é bem assim, porque gradativamente ela foi se tornando mais complexa, passou a precisar de financiamento. E se a ciência precisa ser financiada e foi se ligando ao sistema de produção, há, portanto, interesses envolvidos. O desenvolvimento mostrou que ela não é totalmente neutra. E os interesses tem sim implicações morais, sociais, no domínio dos valores” (Mariconda – professor de filosofia da ciência da USP).

O fato que marca a inflexão da ciência moderna na ciência contemporânea foi o Projeto Manhattan, a produção da bomba atômica. Esse fato fez com que a ciência ficasse cada vez mais aliada ao lucro e ao poder, distanciado-a cada vez mais da sociedade.

A ciência dos laboratórios se desenvolveu muito, mas deixou para trás a construção do conhecimento científico da população que está cada vez mais alienada. Hoje o cientista é taxado como alguém louco, que vive fora da realidade. A sociedade não consegue enxergar que a ciência está mais que presente em nosso cotidiano. As pessoas acompanham o desenvolvimento científico e tecnológico sem ter a menor ideia do conhecimento que está por trás e ficam sujeitas a pseudociências e misticismos tolos.

O contraditório no jornalismo científico

fonte:  Revista Unespciência, setembro de 2009.

Em seu livro Conhecimento Público, de 1968, o físico britânico John Ziman (1925-2005) destacou que a ciência moderna teve início pouco depois do surgimento da imprensa. Não a imprensa no sentido estrito e hoje predominante do jornalismo, mas no da impressão, da invenção gutemberguiana, que no século 15 rompeu definitivamente o círculo fechado em torno do conhecimento escrito. A partir desse recurso revolucionário, a recém-nascida ciência moderna não poderia ter deixado de se estruturar em função dele. Muito mais do que ser registrado, o conhecimento científico passou a ter de ser comunicado. Centenas de anos depois, no final do século 19, os cientistas já haviam estabelecido entre si a comunicação por meio de publicações destinadas a especialistas, ao passo que o jornalismo se tornara uma atividade empresarial voltada para o público em geral.

Em meio aos profissionais das diversas especialidades jornalísticas, os repórteres de ciência consolidam, no início do século 20, a imagem de tradutores da linguagem especializada dos cientistas, cada vez mais inacessível para os leigos. “Verdadeiros descendentes de Prometeu, os escritores de ciência pegam o fogo do Olimpo científico— os laboratórios e as universidades— e de lá o trazem para baixo, para o povo”, disse nos anos 1930 William Laurance, jornalista que cobria ciência no New York Times. (Citado por Dorothy Nelkinem Selling Science: How the press covers science and technology. Nova York: W. H. Freeman & Co., 1985.)

Essa criativa metáfora reflete o imaginário da sociedade não só sobre a distância entre o discurso científico e a linguagem comum, mas também sobre a posição dos cientistas como deuses, acima dos “mortais”. Porém, é consenso entre vários estudos que essa é uma concepção ultrapassada de divulgação da ciência. (Fapesp, Indicadores de Ciência, Tecnologia e Inovação em São Paulo 2004, vol. I, p. 12-8.) De um modo geral, no plano do ensino de graduação do jornalismo, prevalece o objetivo pedagógico de substituí-la por uma prática jornalística ancorada na contextualização das atividades científicas, destacando seus problemas, seus métodos e seus aspectos históricos, sociológicos e filosóficos.

A convicção de tantos especialistas de que o modelo de divulgação científica é uma visão ultrapassada mal se estendeu além do mundo acadêmico onde ela foi construída, pois surtiu pouquíssimos efeitos na prática jornalística na cobertura de ciência e tecnologia, uma vez que nela persiste hegemonicamente aquela concepção superada. O papel passivo apontado como característica da sociedade no modelo de divulgação científica de Laurance aplica-se, em certa medida, a grande parte dos jornalistas que cobrem ciência, pois sua função mediadora é vista como nula no fluxo vertical da informação. E isso se deve não só à omissão no plano da contextualização das notícias de ciência, mas também à falta do contraditório. É como se a ciência fosse detentora de verdades absolutas e não comportasse diferentes visões sobre seus temas. Com isso, o jornalista abre mão não só de sua função mediadora, mas, acima de tudo, de seu dever profissional de lidar com diferentes versões. Quem perde com isso é o leitor, ouvinte ou telespectador, que recebe uma informação prejudicada para promover uma compreensão crítica do processo relacionado ao fato jornalístico.

Os cientistas, no entanto, sabem que as conclusões de suas pesquisas não são definitivas. Sabem também que grande parte de seus trabalhos envolve diferenças de interpretações, e geralmente os bons papers fazem menção a trabalhos baseados em visões conflitantes com a do autor. Mas raros são os jornalistas que lidam com artigos publicados em periódicos científicos e têm condições de identificar outras fontes que possam oferecer versões diferentes até mesmo divergentes da pesquisa que é o tema central de sua reportagem.

Cabe à sociedade exigir uma cobertura jornalística de ciência pautada pelo mesmo preceito ético de independência que deve reger a atividade da imprensa. Na verdade, essa é uma cobrança que precisa cada vez mais ser feita em relação ao jornalismo como um todo. Mas isso é assunto para outra conversa.